Carta Aberta
Têm dias que acordar é um peso. Abrir os olhos, levantar da
cama, tomar um café, fingir que tudo está bem enquanto a gente faz as tarefas
mundanas, pra não deixar quem está perto preocupado.
Pelo menos para mim as coisas são assim a muitos anos. São
raros os momentos de felicidade plena. E são sempre rápidos e passageiros.
Porque logo em seguida se instala aquela sensação de que eu não sou digno.
Desde muito cedo essa sensação de falta de “indignidade” me
persegue. Deixa eu explicar melhor o que é isso. É essa sensação de que você
não merece nada de bom que te acontece, que você não tem méritos, que você está
enganando quem está perto, e que alguma hora eles vão perceber o grande embuste
e a pilha de bosta fumegante que você é e vão te dar um pé na bunda se
perguntando como foram capazes de ficar tanto tempo perto de alguém assim. E
com isso você se afasta, porque paradoxalmente você quer estar perto das
pessoas que ama, mas também não quer deixar elas muito perto, pra não dar
chance delas verem “a verdade”. E aí elas naturalmente se afastam, e você para
de entrar em contato, cria um monte de desculpas autoindulgentes para não ir
atrás delas, porque não quer “incomodar” e coisas desse tipo. E aí todas essas
crenças negativas se confirmam e a gente fica se sentindo abandonado e vem uma
sensação de vazio e solidão profunda. E começa o ciclo todo de novo, porque
esse negócio é viciante e é uma armadilha e nos mantem preso.
São 42 anos vivendo dessa forma.
Mas não quero chegar aos 50 desse jeito.
Quero ver a vida de maneira mais leve. Quero olhar no
espelho e ver as qualidades que as pessoas dizem que eu tenho. Quero tentar
gostar um pouco mais de mim. Quero relaxar. Não quero mais chorar escondido e
tentar soterrar essas coisas lá no fundo, criando essa panela de pressão que tá
pra explodir e me matar.
Hoje é dia 01 de outubro. Dia 01 dessa tentativa de sair do
atoleiro emocional.
Porque eu preciso. Porque eu necessito. Porque as coisas não
podem ficar assim.
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